Ateus – Rebeldes contra Deus e o Diabo

Por Georges Minois
No século XVI, a efervescência cultural trazida pelos ventos do Renascimento e da Reforma começava a chacoalhar os pesados dogmas medievais da Europa. As afirmações de Copérnico de que a Terra não estava no centro do Universo colocavam em xeque a concepção de mundo defendida pela Igreja, e a própria autoridade do papa era questionada pelos protestantes.
Em meio a tantas novidades, porém, um dogma permanecia intocável: a crença na existência de Deus. Por muito tempo se acreditou que nesta época o adjetivo ‘ateu’ era usado apenas como uma forma de insulto para qualificar supostos hereges ou pessoas que mantinham crenças heterodoxas.Os documentos, no entanto, revelam um quadro muito diferente.
Em sua clássica obra sobre o tema, ‘Le problème de l’incroyance au XVI scièle’ (O problema da incredulidade no século XVI), de 1942, o historiador Lucien Febvre situa o surgimento da negação explícita de qualquer divindade por volta de 1550. Os relatos a época, porém, mostram que muito antes disso o ateísmo já tinha deixado de ser apenas um insulto. O próprio ano de 1550, o pregador François Lê Picard declarava que em Paris ‘há hoje em dia pessoas que não conhecem Deus’, e até ‘há algumas tão más que dizem que não existe Deus nem Providência divina…tais pessoas são chamadas atheos, quer dizer sine Deo (sem Deus)…’.
Não faltam registros que mostram como o ateísmo estava disseminado por toda a Europa no período ‘os ateus pululam neste século miserável’, escreveu em 1586 o teólogo francês Pierrre Lê Loyer. Em 1587, o capitão protestante François de La Noue estimava que houvesse na França ‘ um milhão de ateus ou incrédulos’. Poucos anos depois, o embaixador da Espanha na Inglaterra avaliava em 900 mil os ateus nesse país, onde pessoas importantes eram descrentes notórios, como Christipher Marlowe, que acreditava que Moisés era um simples mágico e que Cristo não passava de um bastardo homossexual.

Esse ateísmo incipiente ainda não tinha o caráter de um sistema de pensamento coerente que viria a adquirir séculos depois. No século XVI não existia uma ciência materialista capaz de explicar o muno sem Deus à qual os ateus pudessem recorrer para sustentar suas posições. O ateísmo do Renascimento foi, sobretudo, um catalisador das revoltas morais. Clandestino, ele assumiu um caráter essencialmente subversivo e provocador, e foi duramente reprimido tanto em países católicos quanto protestantes. Em 1546 o editor Étienne Dolet foi queimado em Paris, sob a acusação de ‘ateu reincidente’, ‘epicurista e saduceu’. No ano seguinte, Jacues Gruet teve a mesma sorte na república calvinista de Genebra, sob a acusação de ‘insurgente blasfemador e ateu’. Os casos multiplicaram-se, obrigando aqueles que negavam a existência de Deus a dissimular seus pensamentos em obras ambíguas.