Valores pessoais
Caro leitor, se você espera uma notícia jurídica, com aqueles pífios excelentes comentários; ou uma análise de um livro qualquer, melhor parar por aqui. Esta postagem é pessoal…..
Estava lendo o livro ‘Vícios não são crimes’, de Lysander Spooner e não pude deixar de pensar em alguns aspectos de minha vida, repensando o que, na verdade, para mim e para as outras pessoas, são os ‘valores’?
Semestre passado liderei um grupo de estudos (cuja freqüência dos alunos valia como curso extracurricular para composição das horas obrigatórias de atividades complementares, enquanto para mim valia atividade de ‘monitoria’, relativo à estágio obrigatório). Por conta de uma confusão acadêmica, os comprovantes de freqüência não foram entregues nos períodos determinados.
Isso causou aos alunos o inconveniente de terem de se rematricularem na disciplina (atividades complementares) e, apresentarem ditos comprovantes. O incômodo parava por aí: inocorreram quaisquer prejuízos financeiros ou afins.
Por conta desta confusão, uma colega de faculdade chamada Rebecca*, pôs-se a espalhar boatos pelo campus sobre mim, que, se tomassem corpo, deporiam contra minha responsabilidade ou capacidade.
Eu soube do ocorrido, mas não dei lá muita bola; desfiz o equívoco, apresentei aos colegas minhas desculpas (apesar de não ter dado causa) bem como as soluções pertinentes e segui minha vida acadêmica tranqüilamente. Colaborou com a minha tranqüilidade o fato de uma outra colega, chamada Francisca* ter se colocado em minha defesa quando eu estava ausente e conversado com o coordenador do curso, que afirmou que a atividade desenvolvida por mim e comigo era válida como atividade complementar e que bastava que o comprovante fosse entregue para que a situação fosse regularizada.
Ontem pela manhã, Rebecca sentou-se a meu lado na sala e, por incrível que pareça, ela agiu e age como se nada houvesse ocorrido, como se o comportamento dela, que tinha a potencialidade de prejudicar minha honra acadêmica, não fosse ‘nada de mais’.
Pensei então no esforço pessoal que fiz para, durante o curso, passar o maior número de informações com a melhor qualidade possível. O quanto investi em recursos financeiros (a Universidade não subsidiou nada, apenas forneceu o ambiente físico), tempo (cheguei até a escolher um filme, alugá-lo, levar minha TV e DVD, passar o filme para que eles assistissem….tudo para demonstrar as aplicações práticas do conteúdo teórico do curso). Enfim…fiz por querer; ensinando, aprendi ainda mais.
Não nego que este comportamento dela me deixou, em certa medida, com um pouco de raiva, como também decepcionada e triste. Mas lendo o livro de Lysander Spooner, comecei a observar o comportamento dela com outros olhos. Em dito livro, ele aduz que:
…Os vícios são simples erros que um homem comete ao buscar a sua felicidade individual. Ao contrário dos crimes, não implicam qualquer intenção criminosa relativa a outrem, nem qualquer dano relativo à sua pessoa ou aos seus bens…”
Então pensei que no momento em que ela começou a espalhar ditos boatos contra mim, ela pode ter se deixado levar pela ignorância, pela frustração decorrente de ter feito o curso e imaginado que este curso não teria validade. Assim, ela incorreu em erro. Mas esse erro não visava, necessariamente me causar quaisquer prejuízos. Ela agiu como uma pessoa que se afoga e que faz qualquer coisa para manter o pescoço de fora d’água…ignorando que ao lado está um bote salva-vidas.
Também ontem tive uma longa conversa com minha amiga, mentora e tia, Nicinha. Contei a ela alguns aspectos de minha vida pessoal (que não relatarei pormenores aqui, óbvio), e como os comportamentos de algumas pessoas me feriam gravemente.
Explico: há algum tempo atrás eu fiz algo de que me envergonho (calma, não matei ninguém, nem cometi um furto ou algo similar). Menti para um amigo, um amigo muito querido. A natureza e contexto da mentira permitiriam que eu o mantivesse na ignorância.
Mas eu não pude. Não senti que seria correto mantê-lo às escuras. Então confessei a verdade. Mesmo contrariando aquele instinto natural que temos de esconder nossos erros embaixo do tapete, ainda assim eu contei. Recebi a reprimenda devida. A reprimenda doeu, mas o alívio que se seguiu, por eu ter feito o que achava correto, valeu a pena.
Assim, não sou nenhuma santa, não estou imune ao cometimento de erros, de forma que procuro, ao máximo possível, não julgar como um carrasco aqueles que mentem para mim. O problema, na verdade, não é a mentira, mas a motivação dela e o comportamento que se segue a ela.
Certa feita uma pessoa mentiu para mim, dizendo que tinha CNH. Descobri a verdade, mas não me importei muito, pois achei que a motivação da mentira justificaria que eu a relevasse (na minha cabeça ele teria mentido seguido aquele impulso natural masculino de não confessar que não tem uma habilidade dita comum entre os homens). Homens dão muito valor à habilidade de dirigir (muito mais do que ela realmente tem), isso por questões culturais. Confessar que não possuem esta habilidade por vezes é um transtorno para eles.
Agora estou envolvida numa situação um pouco mais séria: junto a outras duas pessoas, estou envolvida num contexto que me faz crer que uma das duas está mentindo para mim e que ambas são pessoas em quem depositei confiança e afeto. O que me preocupa é que a motivação da mentira (vinda de quaisquer dos lados) implicaria numa leviandade sem tamanho, que vai de encontro a tudo o que eu acho importante, como honra, caráter e honestidade.
Estou escrevendo meio por alto por não poder revelar algo que não pertence só a mim, faz parte das vidas de outras pessoas. E também para não incorrer numa injustiça com nenhuma das duas. Queria deixar de lado e seguir minha vida, creiam-me. Mas sou curiosa por natureza e não desejo ser injusta. Assim, minha mente precisa de uma explicação que faça algum sentido.
Aparentemente, ‘A’ não teria motivo algum para mentir-me. Mas se o fez, fez por algum motivo. Se o fez nesta ocasião específica, e sobre determinado assunto específico, isso não implica necessariamente que tenha mentido em outros assuntos, mas mina a confiança que você tem de que os demais assuntos e contexto tenham sido verdadeiros.
Por outro turno, ‘B’ tampouco teria motivos para mentir-me, mas sua afirmação negativa em determinada resposta que me concedeu, implica que ‘A’ tenha mentido. Voltamos então ao ponto inicial: qual motivo ‘A’ teria em mentir-me?
Superemos essa fase, pois ao leitor deve estar muito chato ler algo tão parcialmente contato. O que quero falar, na verdade, é sobre valores.
Antigamente as pessoas tinham um maior consenso sobre o que seria o certo ou o errado, hoje vejo que tais certezas foram diluídas num caldeirão de ‘valores’ desconexos e extremamente pessoais.
Uma pessoa pode afirmar que furtar é errado, mas não se incomodar em receber troco errado e, percebendo, não mencionar nada. Não sou assim: há uns bons meses fui para Lavras e, ao pagar uma conta, esqueci-me de mencionar o consumo de uma lata de bebida. Fim-de-semana passado voltei ao mesmo local e contei à balconista o que havia ocorrido e pedi para que ela me cobrasse.
Simpatissíssima (notem o superlativo), ela disse que eu poderia ficar com minha consciência em paz, mas que não me cobraria. No momento de passar o cartão de débito para cobrar o novo consumo, ela passou o valor errado (a diferença, para menor, era MUITO grande). No momento de digitar minha senha, eu percebi o engano dela e avisei.
Conheço muitas pessoas que me chamariam de burra por isso, pois o erro dela me daria um belíssimo lucro (economia), mas eu não titubeei nem por um segundo, no momento que vi o erro, já falei de plano.
Não que isso me torne, de alguma forma, especial, fui criada para entender que honestidade é obrigação e não virtude.
Isso me remete novamente à conversa que tive com minha tia/mentora Nicinha: do alto da ‘sapiência’ de seus 50 e poucos anos, ela contou-me como achava que os valores eram diferentes na época atual. No momento de opinar sobre a questão das pessoas “A” e “B” que mencionei, ela contou como pensa que a mentira que as pessoas contam, na verdade era fruto da covardia e da ilusão.
No entender dela, as pessoas simplesmente não tinham coragem de assumir que fizeram algo que aos olhos de outrem, é torpe. Por não terem essa coragem, vivem na ilusão de que a mentira é melhor, por poupá-los das conseqüências que adviriam de seus atos; quando, a bem da verdade, essa aparente ‘facilidade’ existente na mentira, era uma ilusão.
Claro que também no relato que fiz a ela, omiti certos aspectos que envolvem a situação, já que eles não me pertencem totalmente (como também as outras pessoas); sendo-me defeso violar a privacidade alheia.
Minha tia falou-me sobre como, na hipótese da pessoa “A” ter me mentido, mesmo considerando que esse erro poderia ser fruto da covardia (ou da possibilidade de ter sido levada a assim agir por um envolvimento emocional poderoso), que o comportamento desta pessoa teria sido, no mínimo, leviano.
Palavras são apenas um meio para um significado e então passamos a falar sobre leviandade. No dicionário Houassis, leviano significa:
‘aquele que julga ou procede irresponsavelmente; que denota falsidade ou precipitação; imprudente’
Transpondo o significado para a questão da mentira, teríamos que mesmo que uma pessoa minta, quer seja por covardia, quer seja por outros motivos, ela pode estar sendo leviana, na medida em que não tem a prudência de pensar nas implicações que esta mentira terá para a vida de outra pessoa.
Também a mentira revelaria um egoísmo: a pessoa que mente tenta, desesperadamente, se poupar das implicações que a revelação da mentira teria para si mesma, ignorando totalmente as implicações que a mantença de tal mentira teria para os outros.
Passamos então a falar sobre fidelidade e em suas várias implicações. A fidelidade ao pensamento, por exemplo: podemos ter uma determinada idéia e sermos fiéis a ela. Isso implica, necessariamente, que não podemos ter outras idéias? Claro que não! Tampouco isso implicaria que não podemos mudar de idéia, pois isso seria dogmatismo.
Que existe uma fidelidade ao pensamento, isso existe. Não pensamos qualquer coisa, pois isso não seria pensar. Pensar é um ato racional, bem diferente do divagar. Quando pensamos algo (pensar como um ato racional)/, nos lembramos disso, do pensamento; de modo que o pensamento requer memória e é exatamente da memória que advém a fidelidade. Ser fiel às suas idéias não é apenas querer conservá-las, mas querer lembrar que as temos ou tivemos.
Isso não implica, necessariamente, que não possamos mudar, pois querer conservar as idéias à força equivaleria a não desejar submetê-las ao crivo da verdade, da experiência da reflexão. Fidelidade à verdade e seria isso que distinguiria a fidelidade do fanatismo ou da fé; ser fiel a uma idéia seria recusar-se a abandoná-las sem que para isso haja uma boa e forte razão (superior).
E no amor? O que seria fidelidade neste campo? Se fidelidade a uma idéia não implica que nos dediquemos exclusivamente a ela, com a fidelidade no amor não ocorreria o mesmo? Haveria uma obrigação de desfrute exclusivo?
Por primeiro então, necessário definir o que seria um casal. Encontros sexuais, por mais repetidos que fossem, não fariam um casal; da mesma forma que a coabitação por longos anos tampouco seriam. Um casal pressuporia um comprometimento com o bem-estar do outro, seria o ato de ocupar-se disso, com o bem-estar do outro e o bem-estar de ambos.
Seria algo como ‘eu me ocupo com o nosso bem-estar. Ajo de forma a propiciá-lo e a mantê-lo’. Assim, a leviandade, seria o ‘desamor’, pois agir levianamente implicaria em ter pouco cuidado com as implicações que seus atos teriam para a vida do casal.
Assim, o relacionamento de um casal não implicaria na obrigação de desfrute exclusivo, se ambos concordassem por excluir tal coisa; mas se um dos componentes (ou ambos) desejassem exclusividade de desfrute, ou o outro se adequaria a isso ou então teria de abandonar a relação.
E fidelidade na amizade? Penso que ela implica em cuidados análogos àqueles que mencionei sobre o casal: ser fiel a um amigo seria agir de forma a propiciar o maior bem-estar possível a ele.
Já vivi uma situação em que tive de optar (e isso é muito injusto) em deixar um pouco de lado determinado relacionamento de amizade, em prol de outro relacionamento; já que naquele momento era impossível a coexistência. Isso me causou e me causa uma certa dor, não só aquela inerente a todas as escolhas que fazemos (já que cada escolha implica numa renúncia, ainda que parcial), como também uma dor especial que ainda não consegui distinguir bem.
Lembrei de uma frase daquele filme bobo (Titanic), onde a velhinha fala que ‘o coração de uma mulher é como um Oceano profundo’. Não sei o que me fez lembrar disso….enfim…
Não abandonei de vez nenhum relacionamento, apenas abandonei a freqüência com que me comunicava com uma das ‘contra-partes’. Penso que isso pode não ser muito justo com ela, já que ela sempre se mostrou uma pessoa que compartilha comigo valores que acho importantes, como honra, honestidade e caráter. Mas se for uma amizade real, sobreviverá a isso; tenho amigos que não vejo há meses/anos e isso não teve o condão de diminuir o sentimento que nutro por eles.
Sentimentos fortes e reais não morrem, meu avô morreu no ano de 1980 e ainda tenho um profundo amor por ele, tão profundo que não me estenderei no assunto….(que falta me faz!).
Todavia, não ignoro que a ausência dos meus amigos (aqueles que mencionei não ver há anos) me retira a possibilidade de apoiá-los quando eles necessitam de apoio, ou de partilhar com eles as deliciosas coisas do dia-a-dia. Isso me faz pensar que no futuro posso ouvir ‘você não estava lá quando eu mais precisei’. Isso vai doer, eu sei. Poderia retorquir ‘você também não estava aqui’. Só que, com relação ao relacionamento que eu optei por ‘deixar de lado’, teria de ouvir ‘foi você quem optou’.
Onde eu estava mesmo? Hahahahaha
Valores, valores, valores….
O que é a verdade? Já aprendi que não podemos confiar nos nossos sentidos para tentar defini-la. Exemplo: se você colocar uma de suas mãos num balde de água quente e a outra num balde de água gelada, ao pegar um mesmo objeto, hora com uma mão, hora com outra, sua mente lhe dará respostas diferentes, a depender de qual mão está o objeto.
Se não podemos confiar em nossos sentidos, podemos confiar no quê? Onde está a verdade? No texto ‘a refinada arte de detectar mentiras’, aprendemos como uma mentira pode ser detectada. Não acho que todas possam, e isso pelo fato de sermos constantemente bombardeados por experiências sensoriais diferentes.
Não obstante, adotar o ditado ‘a verdade de cada um’ não seria adequado, haja vista que isso equivaleria a ser um sofista, tão criticado por Sócrates. Na faculdade de Direito, de certa forma, aprendemos a ser sofistas, quando não mentirosos, hipócritas (isso não desejo ser, de modo algum!).
Um comportamento pode estar dentro da legalidade e ainda assim contrariar o que entendemos por ‘justo’. Um comportamento pode ser mentiroso, hipócrita, ignóbil, e ainda assim estar dentro da legalidade.
Se defendermos uma pessoa que agiu mal, mas está dentro da lei; em detrimento de outra que agiu bem, mas contrário à norma; onde está a justiça e a verdade?
(Superman, Superman!)
Algumas pessoas dizem sobre advogados, que para eles a verdade está sempre ao lado dos seus clientes; outras, mais cínicas, aduzem que para um advogado a verdade está do lado da carteira mais recheada.
Para mim e para minha família valores são ‘coisa séria’. Acho que somos dinossauros, ultrapassados. Nos entregamos aos nossos relacionamentos (amizade, família, amores) de uma forma muito profunda, muito pessoal. Para nós relacionamentos requerem dedicação. Mas seria lícito que exigíssemos dos outros a mesma seriedade? É-me lícito querer exigir que todo mundo que me conte uma mentira, que procure desfazê-la?
Minha sábia tia me disse que: se não podemos exigir que todos ajam desta forma, podemos exigir que aqueles que se relacionam conosco ajam.
Eu posso não saber ainda ao certo quem eu sou, já que estou em constante mudança, mas sei quem ou o quê eu definitivamente não quero ser. Estou ainda pensando sobre o que ela disse, não quero ser uma leviana, julgando precipitadamente o que quer que seja.
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*Nomes fictícios