18th June 2008

Especicismo?

cachorro.jpg

Especifismo. Talvez seja essa uma das faces do comportamento humano atual. Achar que temos total supremacia sobre os demais seres, que podemos deles dispor da forma que bem entendemos.

O assunto foi resgatado em minha mente pelo jovem bardo que carinhosamente chamo pela alcunha de Revy. Ele apresentou-me a história de Lorena, que me rememorou a história de Goiás e a história da Bienal.

Conheci canalhas que aproveitam-se de outros seres (humanos). São ignóbeis, sem dúvida; mas ainda piores são aqueles que investem seus ataques àqueles que possuem pouca ou nenhuma condição de defesa/revide: os animais. A esses eu chamo….Ah! Acho que não inventaram ainda palavra apropriada!

Assim como a Lorena-humana (que tanto chorou pela cachorrinha), respondo, àqueles que me acusam de sentimento barato: BAH!


Há muito aprendi, num filme iraniano (Através das Oliveiras) que aqueles que não se emocionam com nada são incapazes de serem felizes. Não gostou? Meu sentimentalismo te ofende/incomoda? Dê F4 e boa navegação: por certo encontrarás outras páginas que estejam mais de acordo com tua têmpera!Se isso torna aqui uma ‘Sussurrocracia’ (ri muito do termo que me foi apresentado!), talvez… hehe.

À quem fica, forneço argumentos melhores do que simples sentimentos. Com vocês Peter Singer! É ele um filósofo australiano que em seu recente livro voltou seus olhos para o direito dos animais. Recentemente ele forneceu uma entrevista para a revista Óia Veja, onde o assunto foi abordado. Abaixo transcrevo o principal, caso queiram ler na íntegra, acessem aqui.

Veja – Em seu último livro, o senhor volta ao tema dos direitos dos animais. Não é contraditório justificar o aborto e a eutanásia mas defender a vida dos bichos?
Singer – Sempre fui mal interpretado nesse aspecto. Em nenhum momento disse que não devemos comer carne porque é errado matar animais. O alvo de minhas críticas é a maneira antiética como os animais são criados e abatidos para consumo.

Veja – O senhor argumenta que é preciso pensar na comida de forma ética. O que significa isso?
Singer – As pessoas precisam parar de pensar na comida apenas como algo de que se gosta ou que faz bem à saúde. O ato de comer também é uma decisão ética e moral. É necessário pensar nas conseqüências do comer, tanto para os animais que nos servem de alimento como para o meio ambiente ou para nós próprios. A forma como nos alimentamos hoje faz o animal sofrer, provoca uma epidemia de obesidade no mundo e é causa de uma série de doenças nos seres humanos. Isso tem impacto profundo no planeta e no meio ambiente.

Veja – O que há de errado na criação dos animais destinados à alimentação humana?
Singer – Os animais são criados nas fazendas industriais sem a mínima dignidade. Os porcos, que instintivamente procuram abrigo para alimentar seus filhotes, não podem sequer se mexer, porque vivem num espaço mínimo. Os filhotes são arrancados da mãe o mais rápido possível, para que possam engordar e procriar. O gado não come capim, como todo mundo pensa, mas restos de animais e seus excrementos. Os frangos criados em granja vivem em galpões que abrigam até 20.000 aves que nunca vêem a luz do dia, só a luz artificial. São abarrotadas de antibióticos e hormônios para ganhar peso. Quem não se interessa pelos bichos deve pelo menos pensar em si próprio. A doença da vaca louca é um exemplo do resultado dessa forma de criação estapafúrdia. Além disso, o confinamento de bilhões de animais, alimentados de forma excessiva para o abate, exige uma quantidade incomensurável de plantações. Em alguns anos não haverá mais terra para plantio no planeta. Isso sem falar que a China e a Índia, com suas enormes populações, começaram a reproduzir métodos ocidentais de criação de animais. Se esse processo continuar, aumentarão os danos ao ambiente, a incidência de doenças cardíacas e os casos de câncer do sistema digestivo. São bons motivos para avaliar a comida moralmente.

Veja – O que o senhor propõe para mudar essa situação?
Singer – Eu sou vegetariano, mas não acredito que parar de comer carne seja a solução para o mundo. Há maneiras mais dignas de criar os animais, respeitando sua natureza e o meio ambiente. Pode parecer contraditório, mas são os próprios produtores de alimentos que vão imprimir essas mudanças. Na primeira etapa do processo, o consumidor precisa ser educado. Esse é um dos objetivos do meu novo livro. As pessoas têm de conhecer a realidade das fazendas industriais e saber que suas escolhas têm muito peso para modificar a atitude dos empresários do ramo em relação aos animais. O mercado só produz o que o consumidor quer. O consumo de vitela, por exemplo, caiu drasticamente quando se tornou público que os bezerros são separados da mãe e transformados propositalmente em animais anêmicos, confinados em espaços minúsculos, para que sua carne fique macia e branca.

Veja – Os produtores de alimentos estão dispostos a mudar seus métodos de criação de animais de maneira drástica?
Singer – Eles não têm muita saída. No mês passado, o maior produtor de porcos dos Estados Unidos, a Smithfield Farms, anunciou uma reestruturação nos criadouros de seus animais, hoje confinados em pequenos espaços. A empresa tem 187 fazendas de porcos nos Estados Unidos e prevê que só em dez anos as mudanças serão implementadas em todas elas. Mas a simples divulgação da medida já desencadeou uma série de outras ações, inclusive de empresas menores, que conseguirão resultados mais rapidamente. Poucos dias depois de a empresa americana anunciar isso, a maior produtora canadense de porcos decidiu fazer o mesmo.

Veja – A ação dessa empresa decorre da conscientização do consumidor?
Singer – Sem dúvida. É uma reação em cadeia. A empresa americana só promoveu mudanças em sua criação de porcos porque sofreu pressão de um de seus maiores clientes, o McDonald’s. E isso só aconteceu porque os clientes do McDonald’s mostraram indignação com a forma como os porcos são criados. O mesmo está ocorrendo em relação ao aquecimento global. A preocupação das pessoas com o futuro do planeta é cada vez maior, o que tem pressionado as empresas a mudar suas atitudes e seus métodos de produção, criando alternativas para evitar a emissão de dióxido de carbono.

Veja – A humanidade sempre manteve laços afetivos com alguns animais. Por que oferecemos tanto amor aos bichos de estimação e às espécies em extinção enquanto negligenciamos as que nos alimentam?
Singer – Sempre fomos muito seletivos em relação aos animais com os quais queremos nos relacionar. Temos uma ligação mais profunda com bichos nos quais reconhecemos emoções e sentimentos, em particular com os cachorros, por causa do amor incondicional que eles nos oferecem. Respondemos bem a isso. As espécies em extinção, por sua vez, representam as mudanças que o planeta sofreu por causa da interferência humana. A extinção, por ser irreversível, é uma representação da perda, um processo que nos toca fundo. O mesmo não acontece com os animais que nos servem de alimento. O ser humano não tem empatia com eles nem quer mudar os próprios hábitos alimentares. É mais fácil não pensar sobre isso.

Veja – Em seu livro, escrevendo sobre a obesidade, o senhor sugere uma reflexão sobre o conceito da gula. Por que a sugestão?
Singer – Comemos demais e desnecessariamente. As religiões, de certa forma, sempre exerceram um controle sobre o que os fiéis comem. Uma leitura moral da história da alimentação revela que, de todas as religiões, a que menos conteve os excessos alimentares foi o cristianismo. Não se encontra na cultura cristã a série de restrições alimentares presente no islamismo, no judaísmo e até mesmo na tradição hinduísta. Nessas três culturas, há diversas advertências sobre o que se deve ou não comer. O que existe na tradição cristã é o pecado pelo excesso de comida, a gula, que foi esquecido ao longo dos séculos pelos cristãos. Esqueceram-se da gula e preocuparam-se com outros pecados, principalmente os de natureza sexual. O maior exemplo disso são os Estados Unidos. É um país cristão por natureza e, mesmo assim, a nação com a maior população obesa do mundo. Precisamos pensar sobre isso. Afinal, uma pessoa que come o dobro ou mais de carne do que precisa, carne proveniente de animais criados para consumo, não faz mal apenas a si mesma. Esse hábito tem impacto no planeta e, do ponto de vista moral, também é duplamente ruim.

Veja – O senhor é a favor dos alimentos geneticamente modificados, os transgênicos?
Singer – Do ponto de vista moral, não vejo mal algum nos transgênicos. Ainda mais imperioso do que combater a obesidade é acabar com a fome no mundo, e esses alimentos podem ser uma das soluções para o problema. Além disso, as plantações de transgênicos não precisam de pesticidas, o que ajuda a preservar o meio ambiente, ao contrário do que ocorre nas fazendas convencionais.

Veja – O que diria a quem deseja ser ético em relação à alimentação diária?
Singer – O que defendo no livro, e faço questão de deixar bem claro, é que não precisamos ser vegetarianos para ser éticos. Da mesma forma que não precisamos parar de usar o carro para ajudar a combater o aquecimento global – podemos mudar o tipo de energia usada para o carro funcionar. Na questão alimentar, é possível, por exemplo, evitar a carne de animais criados de forma tradicional. Uma boa opção é escolher os produtos animais provenientes das chamadas fazendas orgânicas. Já é uma tremenda mudança.

Veja – E que conselhos daria a quem quer ser ético no dia-a-dia?
Singer – Comece pelo mais simples. Cumprimente as pessoas, diga bom-dia, seja educado com quem convive.

Então eu pergunto: custa tanto assim comportar-se com um mínimo de ética?
É difícil demais resistir ao impulso sádico de atropelar um animal de propósito?
É tão difícil encarar o morador de rua como um ser-moral, compreendendo que ele tem tantos direitos quanto qualquer um de nós?

É tão difícil?


This entry was posted on Wednesday, June 18th, 2008 at 9:27 pm and is filed under Comportamento, Costumes, Direito Penal, Sociedade. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Temos atualmente 13 comentários para “Especicismo?”

Que tal compartilhar a sua opinião e/ou pensamento? Deixe um comentário e divida as suas idéias. Mas, lembre-se de ler a Política de Comentários antes de postar. Ao ponto que postar, você estará automaticamente concordando com as normas. Lembre-se que nos reservamos o direito a não aprovar comentários que acharmos que não estejam condizentes com as regras. Obrigada.

  1. 1 On June 18th, 2008, Lorena (Xochiquetzal) said:
    Fátima,

    obrigada por mencionar a Lorena no seu blog, e por divulgar a entrevista de Singer.

    Por sorte, para os milhares que sentem de menos há sempre algumas dezenas que sentem demais.

    Um grande abraço,

    –Lorena =)

    [responder]

    Fatima reply on June 18, 2008:

    Lorena:

    Olá!
    Eu é quem agradeço por você haver compartilhado sua história e sentimentos com toda a blogosfera.

    Sê bem-vinda. :smile:

    Obrigada pela visita e pelo comentário!

    :razz:

  2. 2 On June 20th, 2008, Dai said:
    Lamentável, as pessoas se embrutecem de tal forma que chega a ser palpável o mal estar que sentimos - nós dezenas - em coabitar com essa brutalidade num mesmo espaço, neste mesmo planeta.
    Reação em cadeia é o único caminho. Precisamos fazer, cada um de nós, uma revoluçãozinha, um grito aqui, organizar um protestozinho acolá,na porta de grandes restaurantes, churrascarias, sei lá. Eu verdadeiramente sofro com essa questão há muito. Fui vegetariana por anos e confesso estar inclinada a largar de ser carnívora, pois sinto muita culpa, isso é péssimo pro espírito.
    Ignorar não dá, conviver é doloroso. Façamos, como as formigas, nossas partes, como escrever sempre à respeito.
    Precisamos inventar uma campanha na rede, o tal do primeiro passo. Contem sempre comigo.
    Beijo linda amiga :)

    [responder]

    Fatima reply on June 22, 2008:

    Querida Dai:

    É sempre uma honra e um prazer receber sua visita. Gostaria que no ambiente virtual pudesse expressar minha hospitalidade do mesmo modo que expressaria se a recebesse em minha casa: pães feito em casa e um delicioso café.

    Não sendo possível, retribuo com…. sorrisos! :razz: :razz: :razz: :razz:

    Infelizmente o mundo está virando uma latrina. As pessoas só enxergam a si mesmas, o mundo girando em torno de seus próprios umbigos. São como Dorians Grays, Narcisos…mas podem ser piores, podem ser como o Visconde de Valmont ou a Condessa de Meteruil.

    Enfim…meu coração se confrange toda vez que penso nisso. Não havendo remédio, busco refresco para ele em algumas poucas pessoas decentes que ainda conheço. Pode ser apenas um placebo, mas funciona.

    Muito obrigada por sua visita, amiga.
    Grande semana para você!
    Mil beijos.

  3. 3 On June 20th, 2008, Especicismo - modismo trágico « Blog da Dai :) Fênix Apoplética said:
    […] jeito é botar a boca no trombone como muitos blogueiros fazem. É o caso da Fátima Tardelli, do Maldito, e do Sérgio Pontes, um amigo português bem engajado com a causa dos animais.  […]
  4. 4 On June 20th, 2008, Santaum said:
    Oi Fátima,

    Texto muito bom. Essa discussão e esses achismos hoje são muito comuns, até porque hoje em dia o mundo é dos especialistas, o mundo dos que conhecem muito de pouco, ou o dos que acham que conhecem muito de pouco. Aí entra a sua colocação, que foi excelente.

    Grande abraço!

    [responder]

    Fatima reply on June 22, 2008:

    Meu caro ‘Árbitro da Elegância’:

    É um prazer relê-lo/ revê-lo.

    Todo mundo sabe alguma coisa ou acha que sabe. O verdadeiro conhecimento, o que realmente importa encontramos dentro de nós mesmos.

    O que encontramos pode ser bom e a probabilidade de ser bom é equivalente à de ser ruim. Aceitar as pessoas como elas são pode ser tarefa bem difícil quando nos deparamos com sentimentos/pensamentos/valores tão divergentes dos nossos.

    O que vai na alma de cada um? Nunca saberemos ao certo.

    Ouw! Acho que estou viajando demais, né? :grin:

    Essa sua amiga é assim mesmo!
    Grande beijo, mon amice.
    Obrigada pela visita e comentário!

  5. 5 On June 21st, 2008, Marco De Toni said:
    Fantástico!

    A ética em qualquer situação existe frente aos outros. Jargão ou não, mas fechando os olhos é bem possível imaginar tudo o que pode acontecer…

    [responder]

    Fatima reply on June 22, 2008:

    Marco:

    Exato! A Ética é uma ciência, cujo objeto é a moral (entendida enquanto conjunto de valores acerca do bem/mal, certo/errado, belo/feio, justo/injusto eleitos por determinado grupo social). Ela busca descortinar os valores morais a fim de encontrar a fonte deles. Exemplo: qual seria o fundamento do valor moral ‘não matar’ observado em todas as sociedades? Não seria o que Spinosa definiu como ‘a tendência de cada ser humano de permanecer em sua própria existência’ (viver)?

    Todavia, o comportamento ético só pode ser mensurado diante de uma situação específica e perante objetos/pessoas específicas.

    Se fecharmos os olhos ante às ações que observamos em nosso cotidiano, estaremos sendo coniventes com alguns absurdos.

    Plagiando você: Jargão ou não ainda é válida a máxima:

    Para que o mal triunfe, basta que os bons cruzem os braços!

    Obrigada pela visita e excelente comentário.
    É um prazer recebê-lo neste sítio.
    Abraços!

  6. 6 On June 23rd, 2008, Dai said:
    Saiba que sua recepção é tão gostosa quanto o pãozinho e o café. Também a recebo como fosse em minha casa, minha querida. Sempre! :wink: :smile: :lol:

    Beijos!!! Uma bela semana, com paz e felicidade!! Te adoro (cadê os poemas?)

    [responder]

    Fatima reply on June 24, 2008:

    Dai:

    Minha bela amiga!
    Meu amigo Santaum ficou contente por tua visita no Cabala Santauniana.
    E eu fiquei feliz de servir como ponte entre dois amigos que tanto aprecio.
    Quanto as poemas…voltei de viagem ontem e não tive tempo de escrever nada.
    Em breve a inspiração volta e volto à pena/papel :wink:
    Grande beijo! :grin:

  7. 7 On June 23rd, 2008, Felina said:
    Querida Fátima
    Agradeço muito a visita e a força !!! Muito bom ver seus comentários viu?

    Quanto ao seu post, muito me admira essa questão ter que ser tão debatida… deveria ser natural do homem a compaixão com qualquer ser vivo, independente se ele é fonte de alimento, de companhia, um ser humano… enfim.

    Até mesmo cumprimentar as pessoas deve ser aconselhado. Essa é a qualidade do mundo em que vivemos. Não me admira sermos comparados a vírus hospedados nesse planeta.

    Bjocas

    [responder]

    Fatima reply on June 24, 2008:

    Felina:

    Eu é quem agradeço sua visita. Quanto à postagem: infelizmente temos de conviver com a miséria, isso, de certa forma, nos torna um pouco miseráveis, não acha?

    Mas ainda vale a pena tentar suplantar esse ‘destino’ (Óh,….meus sais! :mrgreen: )

    Grande beijo, menina!
    Desejo-lhe tudo de bom! :razz: :razz: :razz: :razz: :razz:

  • Calendário

  • February 2010
    M T W T F S S
    « Mar    
    1234567
    891011121314
    15161718192021
    22232425262728
  • Presenteie quem você ama com o que há de melhor: