Especicismo?

Especifismo. Talvez seja essa uma das faces do comportamento humano atual. Achar que temos total supremacia sobre os demais seres, que podemos deles dispor da forma que bem entendemos.
O assunto foi resgatado em minha mente pelo jovem bardo que carinhosamente chamo pela alcunha de Revy. Ele apresentou-me a história de Lorena, que me rememorou a história de Goiás e a história da Bienal.
Conheci canalhas que aproveitam-se de outros seres (humanos). São ignóbeis, sem dúvida; mas ainda piores são aqueles que investem seus ataques àqueles que possuem pouca ou nenhuma condição de defesa/revide: os animais. A esses eu chamo….Ah! Acho que não inventaram ainda palavra apropriada!
Assim como a Lorena-humana (que tanto chorou pela cachorrinha), respondo, àqueles que me acusam de sentimento barato: BAH!
Há muito aprendi, num filme iraniano (Através das Oliveiras) que aqueles que não se emocionam com nada são incapazes de serem felizes. Não gostou? Meu sentimentalismo te ofende/incomoda? Dê F4 e boa navegação: por certo encontrarás outras páginas que estejam mais de acordo com tua têmpera!Se isso torna aqui uma ‘Sussurrocracia’ (ri muito do termo que me foi apresentado!), talvez… hehe.
À quem fica, forneço argumentos melhores do que simples sentimentos. Com vocês Peter Singer! É ele um filósofo australiano que em seu recente livro voltou seus olhos para o direito dos animais. Recentemente ele forneceu uma entrevista para a revista Óia Veja, onde o assunto foi abordado. Abaixo transcrevo o principal, caso queiram ler na íntegra, acessem aqui.
Veja – Em seu último livro, o senhor volta ao tema dos direitos dos animais. Não é contraditório justificar o aborto e a eutanásia mas defender a vida dos bichos?
Singer – Sempre fui mal interpretado nesse aspecto. Em nenhum momento disse que não devemos comer carne porque é errado matar animais. O alvo de minhas críticas é a maneira antiética como os animais são criados e abatidos para consumo.Veja – O senhor argumenta que é preciso pensar na comida de forma ética. O que significa isso?
Singer – As pessoas precisam parar de pensar na comida apenas como algo de que se gosta ou que faz bem à saúde. O ato de comer também é uma decisão ética e moral. É necessário pensar nas conseqüências do comer, tanto para os animais que nos servem de alimento como para o meio ambiente ou para nós próprios. A forma como nos alimentamos hoje faz o animal sofrer, provoca uma epidemia de obesidade no mundo e é causa de uma série de doenças nos seres humanos. Isso tem impacto profundo no planeta e no meio ambiente.Veja – O que há de errado na criação dos animais destinados à alimentação humana?
Singer – Os animais são criados nas fazendas industriais sem a mínima dignidade. Os porcos, que instintivamente procuram abrigo para alimentar seus filhotes, não podem sequer se mexer, porque vivem num espaço mínimo. Os filhotes são arrancados da mãe o mais rápido possível, para que possam engordar e procriar. O gado não come capim, como todo mundo pensa, mas restos de animais e seus excrementos. Os frangos criados em granja vivem em galpões que abrigam até 20.000 aves que nunca vêem a luz do dia, só a luz artificial. São abarrotadas de antibióticos e hormônios para ganhar peso. Quem não se interessa pelos bichos deve pelo menos pensar em si próprio. A doença da vaca louca é um exemplo do resultado dessa forma de criação estapafúrdia. Além disso, o confinamento de bilhões de animais, alimentados de forma excessiva para o abate, exige uma quantidade incomensurável de plantações. Em alguns anos não haverá mais terra para plantio no planeta. Isso sem falar que a China e a Índia, com suas enormes populações, começaram a reproduzir métodos ocidentais de criação de animais. Se esse processo continuar, aumentarão os danos ao ambiente, a incidência de doenças cardíacas e os casos de câncer do sistema digestivo. São bons motivos para avaliar a comida moralmente.Veja – O que o senhor propõe para mudar essa situação?
Singer – Eu sou vegetariano, mas não acredito que parar de comer carne seja a solução para o mundo. Há maneiras mais dignas de criar os animais, respeitando sua natureza e o meio ambiente. Pode parecer contraditório, mas são os próprios produtores de alimentos que vão imprimir essas mudanças. Na primeira etapa do processo, o consumidor precisa ser educado. Esse é um dos objetivos do meu novo livro. As pessoas têm de conhecer a realidade das fazendas industriais e saber que suas escolhas têm muito peso para modificar a atitude dos empresários do ramo em relação aos animais. O mercado só produz o que o consumidor quer. O consumo de vitela, por exemplo, caiu drasticamente quando se tornou público que os bezerros são separados da mãe e transformados propositalmente em animais anêmicos, confinados em espaços minúsculos, para que sua carne fique macia e branca.Veja – Os produtores de alimentos estão dispostos a mudar seus métodos de criação de animais de maneira drástica?
Singer – Eles não têm muita saída. No mês passado, o maior produtor de porcos dos Estados Unidos, a Smithfield Farms, anunciou uma reestruturação nos criadouros de seus animais, hoje confinados em pequenos espaços. A empresa tem 187 fazendas de porcos nos Estados Unidos e prevê que só em dez anos as mudanças serão implementadas em todas elas. Mas a simples divulgação da medida já desencadeou uma série de outras ações, inclusive de empresas menores, que conseguirão resultados mais rapidamente. Poucos dias depois de a empresa americana anunciar isso, a maior produtora canadense de porcos decidiu fazer o mesmo.Veja – A ação dessa empresa decorre da conscientização do consumidor?
Singer – Sem dúvida. É uma reação em cadeia. A empresa americana só promoveu mudanças em sua criação de porcos porque sofreu pressão de um de seus maiores clientes, o McDonald’s. E isso só aconteceu porque os clientes do McDonald’s mostraram indignação com a forma como os porcos são criados. O mesmo está ocorrendo em relação ao aquecimento global. A preocupação das pessoas com o futuro do planeta é cada vez maior, o que tem pressionado as empresas a mudar suas atitudes e seus métodos de produção, criando alternativas para evitar a emissão de dióxido de carbono.Veja – A humanidade sempre manteve laços afetivos com alguns animais. Por que oferecemos tanto amor aos bichos de estimação e às espécies em extinção enquanto negligenciamos as que nos alimentam?
Singer – Sempre fomos muito seletivos em relação aos animais com os quais queremos nos relacionar. Temos uma ligação mais profunda com bichos nos quais reconhecemos emoções e sentimentos, em particular com os cachorros, por causa do amor incondicional que eles nos oferecem. Respondemos bem a isso. As espécies em extinção, por sua vez, representam as mudanças que o planeta sofreu por causa da interferência humana. A extinção, por ser irreversível, é uma representação da perda, um processo que nos toca fundo. O mesmo não acontece com os animais que nos servem de alimento. O ser humano não tem empatia com eles nem quer mudar os próprios hábitos alimentares. É mais fácil não pensar sobre isso.Veja – Em seu livro, escrevendo sobre a obesidade, o senhor sugere uma reflexão sobre o conceito da gula. Por que a sugestão?
Singer – Comemos demais e desnecessariamente. As religiões, de certa forma, sempre exerceram um controle sobre o que os fiéis comem. Uma leitura moral da história da alimentação revela que, de todas as religiões, a que menos conteve os excessos alimentares foi o cristianismo. Não se encontra na cultura cristã a série de restrições alimentares presente no islamismo, no judaísmo e até mesmo na tradição hinduísta. Nessas três culturas, há diversas advertências sobre o que se deve ou não comer. O que existe na tradição cristã é o pecado pelo excesso de comida, a gula, que foi esquecido ao longo dos séculos pelos cristãos. Esqueceram-se da gula e preocuparam-se com outros pecados, principalmente os de natureza sexual. O maior exemplo disso são os Estados Unidos. É um país cristão por natureza e, mesmo assim, a nação com a maior população obesa do mundo. Precisamos pensar sobre isso. Afinal, uma pessoa que come o dobro ou mais de carne do que precisa, carne proveniente de animais criados para consumo, não faz mal apenas a si mesma. Esse hábito tem impacto no planeta e, do ponto de vista moral, também é duplamente ruim.Veja – O senhor é a favor dos alimentos geneticamente modificados, os transgênicos?
Singer – Do ponto de vista moral, não vejo mal algum nos transgênicos. Ainda mais imperioso do que combater a obesidade é acabar com a fome no mundo, e esses alimentos podem ser uma das soluções para o problema. Além disso, as plantações de transgênicos não precisam de pesticidas, o que ajuda a preservar o meio ambiente, ao contrário do que ocorre nas fazendas convencionais.Veja – O que diria a quem deseja ser ético em relação à alimentação diária?
Singer – O que defendo no livro, e faço questão de deixar bem claro, é que não precisamos ser vegetarianos para ser éticos. Da mesma forma que não precisamos parar de usar o carro para ajudar a combater o aquecimento global – podemos mudar o tipo de energia usada para o carro funcionar. Na questão alimentar, é possível, por exemplo, evitar a carne de animais criados de forma tradicional. Uma boa opção é escolher os produtos animais provenientes das chamadas fazendas orgânicas. Já é uma tremenda mudança.Veja – E que conselhos daria a quem quer ser ético no dia-a-dia?
Singer – Comece pelo mais simples. Cumprimente as pessoas, diga bom-dia, seja educado com quem convive.
Então eu pergunto: custa tanto assim comportar-se com um mínimo de ética?
É difícil demais resistir ao impulso sádico de atropelar um animal de propósito?
É tão difícil encarar o morador de rua como um ser-moral, compreendendo que ele tem tantos direitos quanto qualquer um de nós?
É tão difícil?