10th June 2008

Escravidão mental

 

Jail, prisão

…Os homens não querem unicamente a obediência das mulheres; eles querem seus sentimentos. Todos os homens, exceto os mais brutais, desejam encontrar na mulher mais próxima deles, não uma escrava conquistada à força, mas uma escrava voluntária; não uma simples escrava, mas a favorita.

Portanto eles colocam tudo o que for possível em prática para escravizar suas mentes. Os senhores de todos os outros escravos contam com o medo para manter a obediência: ou o medo deles mesmos ou o medo religioso. Os senhores de mulheres queriam mais do que simples obediência e eles usavam a força da educação para atingir seus propósitos.

Todas as mulheres são criadas, desde muito cedo, na crença de que seu caráter ideal é o oposto do caráter masculino: sem vontade própria e governadas pelo autocontrole, com submissão e permitindo serem controladas por outros.

Todas as moralidades e sentimentos afirmam que a obrigação da mulher é viver para os outros; abnegar-se completamente e viver somente para aqueles a quem está afeiçoada.

Aqueles a quem elas estão afeiçoadas são as únicas pessoas que elas têm – os homens com quem estão casadas ou as crianças que constituem um laço adicional e invencível entre elas e um homem.

Quando juntamos três coisas primeiro, a atração natural entre os sexos, segundo, a total dependência da esposa em relação ao marido, todos os privilégios ou prazeres que ela tem, seja um presente ou algo que depende inteiramente da vontade do marido; e, por último, que é o principal objetivo da busca humana, a consideração, e todos os objetos de ambição social, podem geralmente ser procurados ou obtidos por ela somente através do marido – seria um milagre se o fato de ser atraente para os homens não se tornasse a estrela da educação e formação do caráter feminino.

Uma vez adquirido esse excelente método de influência sobre as mentes das mulheres, um instinto de egoísmo fez com que os homens tirassem o máximo proveito disso como meio de manter as mulheres em estado de sujeição, fazendo-as imaginar que a mansidão, a submissão e a resignação de todos os desejos individuais deveriam ser colocados nas mãos de um homem, como uma parte essencial da atração sexual…”

John Stuart Mill
in “A Sujeição das Mulheres”

No tocante a sujeição de qualquer indivíduo a outro, partilho do pensamento de Frederick Douglass, que bem cedo entendeu que toda e qualquer escravidão só pode ser mantida à custa da mantença do subjugado no estado de ignorância.

Somente o conhecimento, a educação tem o condão de elevar o homem (ou a mulher) ao status de ser livre. Todavia, até mesmo esta liberdade é relativa, ao contrário do que apregoou Rousseau, o homem não nasce livre, já nasce preso por grilhões de convenções sociais.

Também penso que, ao contrário do que pregou ‘Le Bigódón’, na ‘Genealogia da Moral’, o indivíduo ‘forte’ (que seria completamente livre por desobedecer a tais convenções), somente pode ser encontrado em indivíduos imorais (aqueles que, conhecendo o conjunto de valores eleitos pela sociedade em que vive, as rejeita em prol da busca desenfreada de seus próprios interesses), que, não raro se tornam ‘bandidos’. A vida em Sociedade exige esta aparente ‘prisão’. Beccaria a traduziu como ‘a renúncia que cada indivíduo faz, de uma parcela de sua liberdade individual, em prol da coletividade’. Entendo não haver renúncia, dado que a renúncia é um ato de vontade, o que exclui a situação de obrigatoriedade.

Que seja. Mas, até mesmo na prisão social, ainda há uma parcela de liberdade que todo e qualquer indivíduo pode experimentar. Durante muito tempo referida parcela foi benefício exclusivo de uma classe ou subgrupo social.

Muitas desigualdades foram suprimidas, mas a de tratamento entre os sexos permanece até hoje. Por força do ‘motim’ encetado pelas mulheres no curso da história da humanidade, boa parte dela foi elidida; mas isso foi em alguns sítios, em outros permanecem elas até hoje, não obstante existir até um tratado internacional  cujo objetivo é eliminá-las gradativamente.

À mim parece pouco provável que qualquer coisa mude de forma substancial enquanto não houver um maciço esforço em prol da educação. Infelizmente é bem pouco provável que tal ocorra, tendo em vista que todo o sistema é mantido à custa da mantença deste estado deplorável de submissão mental de grande parte da humanidade.

Anoto, porém, que até mesmo quando são colocadas, à disposição das pessoas, vastas possibilidades delas se instruírem (como bibliotecas, cursos gratuitos, etc), grande parte delas rejeitam-nas em prol de ações que, no lugar de elevá-las acima de si mesmas, ajudam-nas a rebaixá-las.

Recentemente discuti o assunto com dois amigos: o primeiro reclamou do quão comum é esse comportamento, inclusive entre seus colegas de trabalho cujo mister é a educação; o segundo apresentou-me o filme ‘Idiocracia’, sátira que busca demonstrar qual pode ser o destino da humanidade, se mantido o curso atual. Deixo o link do vídeo, que cada um extraia suas próprias conclusões.


This entry was posted on Tuesday, June 10th, 2008 at 12:41 am and is filed under Capitalismo, Comportamento, Costumes, Direito, Direito Internacional, Direito Internacional Público, Direitos Humanos, Idiotices, Literatura, Sexo, Sociedade, Sociologia Jurídica. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Temos atualmente 6 comentários para “Escravidão mental”

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  1. 1 On June 10th, 2008, Lealcy B. Junior said:
    O homem não é só movido por suas necessidades ou interesses quando decide diferir do senso comum. Qualquer pessoa que procura se aprofundar no conhecimento científico, filosófico e natural, tende a perceber o quão dogmático é certos comportamentos e, naturalmente, percebe que tem a opção de não participar dessa alienação coletiva.

    Mesmo que por força social acabe por mimetizar o comportamento do grupo por aceitação, em seu âmago ele sabe que tudo é conjectura e se tiver oportunidade, expressará suas verdadeiras motivações e sentimentos.

    Os principais bloqueios dogmáticos são os políticos, sexuais e religiosos. O segundo em função do terceiro, principalmente.

    Se mais pessoas expressassem sua individualidade, seus interesses e suas opiniões sinceras, posso contemplar quantos campos do conhecimento humano seriam beneficiados.

    Beijão e ótimo artigo.

    [responder]

    Fatima reply on June 14, 2008:

    Lealcy:

    Se o artigo foi bom, o que poderia dizer de teu comentário, senão ‘ótimo’?
    Obrigada pela visita e comentário.

    Beijos! :razz:

  2. 2 On June 13th, 2008, fabi said:
    voce le em frances? esse texto me lembrou um que li sobre a condiçao da mulher: http://sergecar.club.fr/cours/nature4.htm

    abraço

    [responder]

    Fatima reply on June 14, 2008:

    Fabi:

    Leio, depois comento (tô com preguicite aguda :razz: )
    Obrigada pela visita e comentário.
    Abraços!

  3. 3 On June 14th, 2008, Rev. Peterson Cekemp said:
    Humm… Excelente post, minha cara!!
    Lembra-se do post escrito no mesmo dia por mim? Sobre “causa e conseqüência”, leitura, inteligência e tal? Então. Mesmo em lugares de “boa educação” como no colégio onde estudo há muita gente lá que, sinceramente, não fica atrás em naaada em relação a adolescentes de escola pública. É aquela coisa, muita instrução, pouca educação.
    Eles lêem aqui e ali, recebem muita coisa boa sobre filosofia e também na aula de formação humana - mas se eles não tem um background cultural, de vivência e de formação, um “ambiente” que estimule o pensamento crítico e tal, pouco, no âmbito geral, vai adiantar a educação do jeito como ela funciona hoje.
    E, na minha opinião, não há tal ambiente. Como querer de alguém a valorização da leitura quando ela é vista com tanta indiferença pelos adolescentes em geral? Quando a própria literatura, ensinada desse jeito segmentado e teórico na escola parece tão distante de mentes que poderiam se abrir ao pura e simplesmente olhar para o fantástico mundo dos livros? Como querer de um estudante de escola pública, morador de regiões da periferia, que ele se interesse por ler quanto é muito mais importante pra sua conservação aprender a linguagem e o comportamento das ruas?
    De qualquer forma, concordo totalmente. Essa educação, a combinação do ambiente com os livros e o conhecimento e etc é fundamental para a liberdade. Não há como poder (ou exercer o poder) sem saber que pode!

    [responder]

    Fatima reply on June 14, 2008:

    Revy:

    Que agradável surpresa, meu caro jovem bardo!

    Sim, você tem razão: também colabora muito para a ‘Idiocracia’ a existência de professores que não sejam apaixonados pelo que fazem.

    Sim! Entendo que se você é apaixonado pelo que faz, consegue empolgar muita gente com o que te apaixona. Assim também ocorre com livros!

    Ah….já falei o quanto eu os amo? :razz:

    Outro dia estava imaginando como as pessoas seriam se fossem livros, sabe? (Tá, reconheço que foi uma ‘viagem’ mesmo :mrgreen: ).

    Existiriam livros com capas ótimas, belas…mas com conteúdo pífio,
    Existiriam livros com capas ruins, porém com conteúdos apaixonantes,
    Existiriam livros novos, com aquele cheirinho delicioso….
    Também existiram os livros velhos, daqueles de sebo….contendo tantas histórias, não só as contidas nas tintas, como também as contidas nas pessoas que o manusearam….
    ….tantos livros…e de tantos tipos!
    pois é….foi uma ‘viagem’ mesmo!
    Beijão e obrigada pela visita e comentário!
    Abraços fraternos, quais caramelos! :wink:

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