Escravidão mental

…Os homens não querem unicamente a obediência das mulheres; eles querem seus sentimentos. Todos os homens, exceto os mais brutais, desejam encontrar na mulher mais próxima deles, não uma escrava conquistada à força, mas uma escrava voluntária; não uma simples escrava, mas a favorita.Portanto eles colocam tudo o que for possível em prática para escravizar suas mentes. Os senhores de todos os outros escravos contam com o medo para manter a obediência: ou o medo deles mesmos ou o medo religioso. Os senhores de mulheres queriam mais do que simples obediência e eles usavam a força da educação para atingir seus propósitos.
Todas as mulheres são criadas, desde muito cedo, na crença de que seu caráter ideal é o oposto do caráter masculino: sem vontade própria e governadas pelo autocontrole, com submissão e permitindo serem controladas por outros.
Todas as moralidades e sentimentos afirmam que a obrigação da mulher é viver para os outros; abnegar-se completamente e viver somente para aqueles a quem está afeiçoada.
Aqueles a quem elas estão afeiçoadas são as únicas pessoas que elas têm – os homens com quem estão casadas ou as crianças que constituem um laço adicional e invencível entre elas e um homem.
Quando juntamos três coisas primeiro, a atração natural entre os sexos, segundo, a total dependência da esposa em relação ao marido, todos os privilégios ou prazeres que ela tem, seja um presente ou algo que depende inteiramente da vontade do marido; e, por último, que é o principal objetivo da busca humana, a consideração, e todos os objetos de ambição social, podem geralmente ser procurados ou obtidos por ela somente através do marido – seria um milagre se o fato de ser atraente para os homens não se tornasse a estrela da educação e formação do caráter feminino.
Uma vez adquirido esse excelente método de influência sobre as mentes das mulheres, um instinto de egoísmo fez com que os homens tirassem o máximo proveito disso como meio de manter as mulheres em estado de sujeição, fazendo-as imaginar que a mansidão, a submissão e a resignação de todos os desejos individuais deveriam ser colocados nas mãos de um homem, como uma parte essencial da atração sexual…”
John Stuart Mill
in “A Sujeição das Mulheres”
No tocante a sujeição de qualquer indivíduo a outro, partilho do pensamento de Frederick Douglass, que bem cedo entendeu que toda e qualquer escravidão só pode ser mantida à custa da mantença do subjugado no estado de ignorância.
Somente o conhecimento, a educação tem o condão de elevar o homem (ou a mulher) ao status de ser livre. Todavia, até mesmo esta liberdade é relativa, ao contrário do que apregoou Rousseau, o homem não nasce livre, já nasce preso por grilhões de convenções sociais.
Também penso que, ao contrário do que pregou ‘Le Bigódón’, na ‘Genealogia da Moral’, o indivíduo ‘forte’ (que seria completamente livre por desobedecer a tais convenções), somente pode ser encontrado em indivíduos imorais (aqueles que, conhecendo o conjunto de valores eleitos pela sociedade em que vive, as rejeita em prol da busca desenfreada de seus próprios interesses), que, não raro se tornam ‘bandidos’. A vida em Sociedade exige esta aparente ‘prisão’. Beccaria a traduziu como ‘a renúncia que cada indivíduo faz, de uma parcela de sua liberdade individual, em prol da coletividade’. Entendo não haver renúncia, dado que a renúncia é um ato de vontade, o que exclui a situação de obrigatoriedade.
Que seja. Mas, até mesmo na prisão social, ainda há uma parcela de liberdade que todo e qualquer indivíduo pode experimentar. Durante muito tempo referida parcela foi benefício exclusivo de uma classe ou subgrupo social.
Muitas desigualdades foram suprimidas, mas a de tratamento entre os sexos permanece até hoje. Por força do ‘motim’ encetado pelas mulheres no curso da história da humanidade, boa parte dela foi elidida; mas isso foi em alguns sítios, em outros permanecem elas até hoje, não obstante existir até um tratado internacional cujo objetivo é eliminá-las gradativamente.
À mim parece pouco provável que qualquer coisa mude de forma substancial enquanto não houver um maciço esforço em prol da educação. Infelizmente é bem pouco provável que tal ocorra, tendo em vista que todo o sistema é mantido à custa da mantença deste estado deplorável de submissão mental de grande parte da humanidade.
Anoto, porém, que até mesmo quando são colocadas, à disposição das pessoas, vastas possibilidades delas se instruírem (como bibliotecas, cursos gratuitos, etc), grande parte delas rejeitam-nas em prol de ações que, no lugar de elevá-las acima de si mesmas, ajudam-nas a rebaixá-las.
Recentemente discuti o assunto com dois amigos: o primeiro reclamou do quão comum é esse comportamento, inclusive entre seus colegas de trabalho cujo mister é a educação; o segundo apresentou-me o filme ‘Idiocracia’, sátira que busca demonstrar qual pode ser o destino da humanidade, se mantido o curso atual. Deixo o link do vídeo, que cada um extraia suas próprias conclusões.